Tela erótica

Era quase 19h. Estava caminhando por uma rua escura, próximo de casa. Eu me dirigia à igreja. O caro leitor deve pensar: igreja? Em plena segunda feira? Sim, amigo, havia uma reunião. O que esse povo de igreja mais gosta de fazer é reunião. Há, inclusive, no meio religioso, uma piada que diz que quando Jesus vier encontrará os cristãos reunidos. Voltando ao que dizia...
Era noite e eu caminhava por uma rua escura. Carregava comigo, como de costume, um livro e o roteiro de uma peça. Virei a esquina. Estava absorto em pensamentos dispersos. Der repente me reparo com a seguinte cena: um casal de jovens frente a frente na porta de uma casa. A moça estava escorada na porta (meio dentro, meio fora) e o rapaz estava de frente para ela. Pareciam namorados. A moça estava numa posição graciosa, para não dizer excitante. Seus olhos diziam: “Venha, me coma! Me possua – quero ser sua!” Todo o seu jeito naquela porta exalava seu desejo de ser possuída. Porém, o rapaz, com seu jeito acanhado, não compreendia o que a jovem moça dizia com seu corpo.
Não é preciso ser filósofo ou psicólogo para saber que a mulher é, em termos evolutivos, mais desenvolvida que o homem. E com desenvolvida quero dizer madura. Nietzsche dizia que frente a mulher todo homem é uma criança. Tiro certeiro. Ainda mais os jovens – pobres diabos – que com sua atitude de machão, pegador, não compreendem a sutileza feminina. Certa vez uma amiga comentou que as mulheres não são complicadas. Eu concordei: os homens que as complicam. Na pequena ética dos afetos – etiqueta – os homens se atrapalham todo.
Homens e mulheres que tem experiência um do outro, conseguem compreender o jogo que é a sedução. Cada detalhe é um sinal, um modo erótico de se comunicar. Uma jogada de cabelo, um olhar por baixo das sobrancelhas, uma mordida no canto dos lábios, aquele olhar feminino que penetra no intimo... pequenos detalhes que revelam o desejo feminino. O homem sem experiência, o tapado, por não compreender esses detalhes, comete gafes que podem ridicularizá-lo. Exemplos: dar em cima de uma dona que não mostrou o mínimo interesse; perder a oportunidade de ter q melhor transa da sua vida com aquela gostosa que implora para ser comida por ele... existe uma infinidade de outros exemplos.
Essa ética, que não tem nada de moral, levou anos, séculos, para ser desenvolvida. E as mulheres levam vantagens sobre os homens. Em primeiro, parece que as mulheres tem uma capacidade incrível de erotizar o que é abstrato. Por isso, em muitos casos, a beleza física é secundária para as mulheres. Basta o homem ter sagacidade (maturidade), gentileza e saber utilizar a palavra certa na hora certa. Em segundo, morrem de medo de ser taxadas de fáceis. Inclusive as mais liberais, embora não admitam. E, no fundo, homens não gostam de mulheres fáceis, a não ser para aventuras e sexo casual – sem investimento emocional.
Voltemos ao jovem casal. Lá está ela, olhando-o, desejando-o. Seus olhos traduzem claramente seu desejo. Ela ignora, inclusive, as crianças correndo ao seu redor e as velhas (evangélicas) fofocando no fim da rua. Ela o quer, ela deseja ser possuída por ele, possuir e ser possuída. Penso, inclusive, que o prazer não vem da penetração em si, mas da relação de poder gerada na hora do coito.
Ele parece compreender inconscientemente o que ela quer. Dá um sorriso bobo, baixa a cabeça, tagarela. Ela o escuta pensando: “Ah estes lábios beijando meu corpo! Ah esta língua lambendo a minha buceta! Como o quero dentro de mim!” Conscientemente, ele parece não perceber o que acontece. Ela ali, inteiramente entregue a ele, e ele tagarelando. Sequer pensa em sussurrar no ouvido dela palavras eróticas, em seduzi-la ainda mais - deixá-la molhada. Sequer arquiteta um plano para entregarem-se um ao outro. Um plano de fuga, que é mais perigoso e, consequentemente mais excitante. Pobre diabo que nada compreende sobre a milenar arte da sedução.
Continue meu caminho pensando na lerdeza do rapaz: uma chance que se perde é uma oportunidade que não volta. E as mulheres cansam quando os homens não as percebem. Aqueles olhos exalando o desejo de ser possuída; aquela imagem dela escorada na porta, delicada, suave, querendo ser comida ficou gravada na minha mente. Senti pena do rapaz que evidentemente perdeu a chance de ter uma das melhores transas da sua vida. Perdeu a oportunidade de gozar o gozo daquela jovem moça. Perdeu o azedo sabor do amor poético...

                                       26.01.2016
                                              2h12
                        
  

                                       Felipe Catão

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