Somos mais que músculos


Confesso: ganhei alguns quilinhos. As razões são as mais diversas, mas a principal: minha cozinheira tem uma especialidade – macarronada! A cada quatro pratos, três são macarronada; o quarto, como ela chama – salpicão. Assim, não tem como não engordar. Some isso a algumas noites de comida congelada, pizza, sushi e, entre as refeições, tomar cervejas e você terá como resultado esse aumento (significativo) de peso.
A constatação, em primeiro, não vem de você que não percebe nada; que ainda tem de si aquela imagem de magricela que pode fazer tudo como correr, pular, entre outras coisas. Der repente, numa tarde, antes de sair para o trabalho, você ouve de sua mãe:

- Meu filho, tua barriga tá muito feia. Tá igual barriga de mulher, mole. Tem que malhar.
- Pra quê mamãe? Prefiro ficar assim...

          Depois, o dia-a-dia te faz perceber que a constatação da sua mãe e os comentários da sua mulher do tipo: “Mohdeuzo, olha essa barriguinha, tão fofinha; Meu momoh tá ficando barrigudinho do jeito que eu quero, bem fofinho; Olha amor, tua barriga tá maior que a minha; Olha essas pituquinhas bem grandinhas”, estão certos. A ladeira que antes eu subia em menos de um minuto, muito rapidamente, agora levo uma eternidade; antes chegava lá em cima como se eu a nem tivesse subido, com bastante fôlego, agora chego quase a beira da morte, ofegante como se tivesse corrido 24 km.
Dia desses, no trabalho, um aluno me chamou:

- Professor?!
- Diga!
- A Jessica disse que o senhor é bonito de rosto, mas feio de corpo.
         
          Até gostei da honestidade do aluno, mas fiquei um pouco deprimido. Gosto do meu corpo como ele é – ou era: magro, franzino, robusto – de um intelectual dos anos 1970 que se perdeu no tempo. Depois passei a prestar mais atenção no meu corpo e a perceber suas mudanças. Observei que os quilinhos que ganhei ficaram concentrados na minha barriga e traduzidos na minha fadiga cotidiana, no meu atual modo sedentário de vida. Ponderei e passei a não mais me deprimir.
          Apesar do arquétipo masculino (da modernidade) ser o de um homem sarado que passa a maior parte da sua vida na academia, que tem barriga tanquinho, musculatura definida, que só come coisa fitnes, faz dieta, toma anabolizante para ter um efeito mais rápido e parecer mais forte, prefiro me manter assim. E valorizo os homens que são assim. Homens que saem todos os dias cedo de casa e trabalham o dia inteiro para o sustento da família; homens que, ao invés de gastar 300 reais com vitaminas, compram seu pão nosso de cada dia, que preferem economizar para fazer sorrir sua esposa e filhos; homens que demonstram que ser homem é mais do que estar na moda, mas é saber valorizar a vida e as pessoas que estão ao seu lado, mais que a seu corpo.
          Essa crônica é dedicada à todos esses homens que abrem mão de seguir esse delírio estético de querer ser perfeito e são como são porque compreendem que o essencial não é, simplesmente, parecer, mas de fato Ser. Estou de boas com minha barriguinha porque o que mais importa, pra mim, é poder passar meus dias e noites de descanso ao lado desta mulher aqui deitada ao meu lado (que espera pacientemente – ou quase – pela conclusão dessa crônica) e que carrega nosso filho em seu ventre. Um ideal estético é apenas um ideal, mas a vida é mais que um ideal: é uma realidade que só faz sentido se o que você faz, faz sentido pra quem você ama.


Felipe Catão Pond

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