PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DELA
Hoje é dia dois de
outubro de dois mil e dezesseis. Dia importante para a democracia e para os
municípios, conforme dizem. Hoje é um daqueles dias em que o cronista tem o
prato cheio, principalmente quando tem interesse por politica. O que não falta
é assunto. Desde ontem venho meditando sobre o que escrever e, confesso,
dezenas de temas (relacionados a politica) me vieram a mente. Temas sérios e
mesmo importantes. Mas algo mais urgente surgiu em minha alma. E não se pode
ignorar a urgência que surge em nós.
Hoje me lembrei de
como conheci Clarice Lispector e me apaixonei pela sua literatura. Relatarei abaixo
como foi:
Era manhã. Fazia calor.
Era um desses dias que eu não tinha nenhum compromisso, nenhum encontro,
nenhuma reunião; estava entregue a solidão. Resolvi pegar minha moto e ir à
biblioteca municipal. Cheguei, troquei duas palavras com um funcionário e fui
para as estantes. Como de costume, fui primeiramente ao encontro dos livros de
filosofia. Passei meu olho por todos, um a um: já havia lido todos. Assim fui
percorrendo a biblioteca: da filosofia para a física, da física para música, da
música para história, da história para a parte de biografias, das biografias
para a literatura. Vi um livro verde e branco, da editora Rocco, da escritora
Clarice Lispector. Era um livro de crônicas. Abri-o e comecei a ler. Fui arrebato
no mesmo instante. Senti-me em suspenso no ar com seu modo simples, cotidiano e,
ao mesmo tempo, profundo de escrever. Chamam a escrita dela de epifânica e foi
exatamente o que experimentei – epifania.
Só tive uma sensação
parecida quando li Nietzsche, aos 16 anos (e ao longo da vida). Nunca nenhum
outro escritor – ou escritora – havia me cativado daquela forma. Eu não
conseguia parar de ler e viver aquelas cenas, mais reais que a própria
realidade. Fiz empréstimo do livro e fui para casa. Lá me tranquei e me
entreguei a leitura daquela pérola. Um outro escritor, que gosto muito, já disse
que a literatura é comunhão: você devora o autor e é por ele devorado a ponto
de um pertencer ao outro. Clarice tocou o mais intimo de minha alma. Chorei, sorri,
vivi cada uma das vivências de Clarice – que já eram minhas. Clarice estava
viva e conversava comigo, tê-a-tê. Eu me apaixonei por ela: uma paixão real e
sincera. Naquele instante lamentei ela já ter morrido (no plano material), pois
ela me parecia tão viva, tão familiar. Queria conhecer aquela mulher,
desposá-la, partilhar minha vida com ela. No final da leitura eu já a amava. Olhei
sua foto no fim do livro: era uma mulher que exalava vida, mostrando parte do
seu dorso esquerdo, olhar misterioso, boca simetricamente desenhada, rosto fino
(revelando sua herança estrangeira), parecia uma bailarina russa.
Clarisse tornou-se
minha escritora de cabeceira e minha companheira. Já foram muitos os livros que
li dela. E cada vez que a leio, me comovo. Seus personagens são comuns,
cotidianos, mas que der repente tem uma crise de consciência e veem sua existência
girando em torno de si; é dos detalhes (sempre cotidianos) que eles parecem
mergulhar e descobrir sua existência no mundo.
Hoje fomos a
livraria, eu e a Bem Amada, e compramos um livro dela, também pela Rocco,
intitulado: “Onde estivestes de noite”. Aquela sensação – nostálgica – tomou conta
de mim. Eu não poderia falar de outra coisa senão da literatura (e da literatura
dela). Com tantas coisas acontecendo Brasil a fora: escândalos, fofocas,
tragédias (como o segundo turno em Manaus entre Arthur e Marcelo Ramos)...
falar de literatura é, além de encontrar um lugar no mundo, vislumbrar a face
dourada (e cinza) da esperança. A arte nos salva e alivia o peso da existência.
Na arte, somos arrebatados para uma realidade mais autentica e mais real que a
própria realidade. A partir da arte podemos enxergar o mundo com olhos de
falcão, podemos tocar a beleza que reside no mundo e desembaraçar os fios de
Ariadne, fazendo do mundo um lugar melhor. A arte nos revela o nada existencial
e desvelando esse nada, tirando o véu do nada (como numa peça de teatro quando
as cortinas são abertas) encontramos – e fazemos – a experiência do Ser. Num mundo
tão pobre (em todos os sentidos) como o nosso; onde quem domina são os pobres
de espirito (não pobres pelo espirito) podemos encontrar na arte um refúgio. Mas
não um refúgio que nos leva ao quietismo. Ao contrário: um refúgio que leva ao
confronto e, do confronto, à ação.
Termino esta crônica
dando um conselho que um outro cronista – Leandro Karnal, do Estadão – deu na
sua crônica de hoje (excelente, leiam): “Faça um
selfie da sua alma: leia um clássico”. Excelente conselho: sigam!
p.s. Essa crônica é dedicada a
uma grande atriz que me ensinou a ampliar meu conceito de arte, Andreza
Ketheleen.
Felipe
Catão Pond


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