Lucidez
Júlio acorda no meio da madrugada. Mais uma
noite mal dormida, pensa. Não se levanta, apenas olha para o teto. A casa está
inteiramente escura, assim como a noite que está sem lua. Fixa os olhos numa
mancha, no teto. Não pensa em nada. Está distante. Não sabe quanto tempo
passou, mas der repente é trazido para realidade pelo zumbido de uma mosca. O zumbido
é, a princípio, distante. Mas pouco a pouco vai ganhando força e frequência. Em
minutos é estrondoso e incomodo. Júlio vira para sua direita, de onde pensa vir
o zumbido. Porém, a escuridão da noite e do quarto o confundem: ele não sabe de
onde vem o zumbido. Cada vez mais incomodado, decide se levantar e ligar a luz.
Ao ligar, o zumbido para. Silêncio absoluto. Não há mosca alguma no quarto. Não
há sinal de que houve alguma mosca no quarto. Ele vai até a cozinha: não há nenhum
vestígio. Um vento gélido, manso, bate em sua nuca, como um sopro – ele fica
arrepiado. De onde vinha o maldito som? – pensa. Abre a geladeira, toma um copo
d’agua e volta para o quarto.
O piano estava alto, por isso a vizinha
reclamou para o senhorio. Este se desculpou e disse que iria resolver o
problema. Ao se aproximar do quarto, o velho percebeu que de fato o som do
piano estava muito alto. Aproximou-se devagar para averiguar o que estava
acontecendo. Do quarto, se ouvia um canto confuso que se prolongava por um ou
dois minutos. Quando silenciava, o velho ouvia o que poderia julgar ser um
diálogo seguido por risos inumanos. O velho dono da pensão se assustou: não
havia mais ninguém no quarto, somente o estranho homem que chegara no fim da
tarde anterior. O velho achou o homem estranho, com seus olhos vermelhos, testa
protuberante, bigode longo e desalinhado, roupas gastas, uma mala de couro
marrom muito velha. O homem falava baixo e se queixava de enxaqueca e, por esta
razão, o velho deixou o homem se hospedar. Soube que um amigo estava vindo para
o encontrar – e isso era tudo. Olhou pela fechadura: o homem estava nu, em cima
do piano, cantando em grego, com uma lança na mão. O velho levou as mãos na
boca, assustado, tapando um grito que saiu como um ruído fino.
Júlio acorda com o toque do seu smartphone. Não
percebeu o horário que havia dormido. Alô, diz. Do outro lado uma voz feminina
responde. Ele reconhece aquela voz rouca – é Helena. O que houve, pergunta. Eu que
te pergunto – o que houve, responde ela um pouco irritada. Como assim, pergunta
Júlio, atordoado e confuso. Você me ligou há uns cinco minutos, falando coisa
com coisa, diz Helena. Eu, indaga Júlio. Você bebeu Júlio, pergunta Helena
irritada. Não sei, responde Júlio confuso, acho que não. O diálogo cessa,
seguido por um longo silêncio. Júlio está soando. Helena, confusa. Há meses que
não se falavam e era estranho estarem se falando no meio da madrugada, daquela
forma, naquela situação. Júlio não lembrava de nada. Sabia que não havia
bebido. Por que eu liguei?
Lá fora, um cavalo relincha – parece apanhar. O
homem no quarto ouve e começa a se vestir. O velho está a porta observando. Um outro
homem se aproxima (o possível amigo do estranho professor). Estranha o velho a
porta. Quando se aproxima para indagar a atitude suspeita, a porta se abre
abruptamente e o homem de bigodes longos sai, muito malvestido. Seus olhos
expressam confusão mental. Ele corre para rua – ignora a cena do lado de fora
de seu quarto. O velho e o homem alto o seguem. Ele sai e vê um cavalo velho e
magro apanhando. Corre na direção do homem. O empurra gritando: Deixe-o! Não vê
que ele é Bismarck?! O homem o olha, confuso. Os transeuntes param. Um guarda,
que via a cena de longe, se aproxima ao observar que as pessoas começam a se
aglomerar. O homem, transtornado, começa a gritar com o dono do cavalo, a
xingá-lo; ameaça soca-lo. O cavalo está desfalecido. Ele abraça o cavalo. Começa
a chorar: Monstro! – grita contra o dono do cavalo. Chorando abraça o cavalo,
dizendo: Vossa majestade, eu estou aqui. Eu, o escolhido, o enviado – o crucificado.
Não se preocupe, vai ficar tudo bem. Olha para o céu e diz: Afasta-te Apolo,
vai para longe na tua carruagem de fogo! Chora muito. O policial se aproxima,
tenta algemá-lo, mas o amigo intervém. O policial pede que retirem aquele louco
dali. O amigo o agarra e o retira. O louco silencia... para sempre! O Cavalo
foi seu ultimo contato!
Júlio acorda num quarto pequeno, com uma porta
a sua frente, sem nada – apenas uma pia. Como vim parar aqui? Há um vidro na
parede a esquerda. Lá fora ele vê um homem com uma prancheta. Ao lado do homem
está Helena, chorando. Júlio se desespera. Observa que sua mão esquerda está
presa a cama. Ele não entende como foi parar ali. Sua cabeça começa a girar. O zumbido
da mosca começa lentamente. Ele se desespera, grita: Tirem essa mosca daqui.
Helena chora, vendo a cena. Tão lúcido!
(Felipe Catão)


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