Sexta-feira
Leia ouvindo Bonr to die - Lana Del Rey
Mais uma sexta-feira! Sinto-me
tão sozinha nas noites de sexta-feira. A razão para isso... bem, não sei por
onde poderia começar. O fato é que fui casada há uns dois ou três anos. Ele se
chama Cristopher. Todos os finais de semana saíamos juntos. A experiência não
era muito boa. Quase sempre ele se embriagava e terminávamos brigando
ferozmente. As vezes ele me machucava. As vezes eu o machucava. E não só
fisicamente. Parece que agredir um ao outro era um modo sádico de manter nosso
amor. O fato é que de algum modo sinto falta disso, por isso quando chega
sexta-feira eu fico deprimida.
Hoje encontrei,
ocasionalmente, uma amiga. Fazia uns oito meses que não nos víamos, desde que
decide me afastar de toda essa falsidade que são as amizades interesseiras. Ela
ficou surpresa por me ver. Perguntou como eu estava. Odeio quando me perguntam
como estou porque, no fundo, ninguém está de fato interessado em saber o que se
passa em nosso íntimo, perguntam por mera formalidade ou para sondar algum
assunto para partilhar nas rodas de fofoca. Para se esquivar da pergunta, quase
sempre respondo que estou bem. E foi exatamente a resposta que eu dei: Estou
bem, foi o que disse de maneira seca, quase agressiva. Não sei ela ficou
constrangida. Ela disse que estava noiva e que casaria em um mês. Deis os
parabéns e fingi que estava apressada. Ela me segurou pelo braço, olhou nos
meus olhos e disse:
- Não some não... senti tua falta!
Ela disse de um modo
tão sincero que me senti mal por ter sido tão grossa com ela. Para “compensar”
a gafe, dei um sorriso com o canto da boca e, por alguma razão, dei meu número
para que ela pudesse me ligar. No fundo eu realmente não queria falar com ela
ou com qualquer pessoa que fez parte do meu passado, mas a culpa me forçou
involuntariamente a tomar essa atitude. Demos um beijinho de despedida. Reparei
que enquanto nos despedíamos ela olhou para o meu carrinho de compras,
verificando que haviam apenas algumas garrafas de vodca, Martini, whisky,
alguns salgadinhos, pão e queijo. Sei que ela penso que eu estava derrotada. Me
olhou com pena. Eu fiquei com raiva dessa complacência estúpida dela e saí
quase correndo, vermelha de raiva. Essa vagabunda se acha melhor que eu só
porque vai entrar numa droga de ralação abusiva, como todas! Passei no caixa,
paguei minhas contas, peguei meu carro no estacionamento e saí voando para
casa.
No caminho uma
lembrança:
Eu e o Cristopher resolvemos
dar uma festinha em casa. Definimos que a festinha seria no sábado e que
convidaríamos apenas nossos amigos mais próximos. A Estela, na época, era minha
melhor amiga e foi uma das primeiras pessoas para quem liguei convidando. Ela pareceu
empolgada quando falei com ela. Na sexta (sempre nas sextas), eu saí para
comprar um vestido. Era sempre uma peregrinação horrível encontrar algo que me
agradasse. Nunca liguei para roupas da moda. O que me importava era encontrar
algo que fizesse eu me sentir bem. Por essa razão nunca chamava o Cristopher:
ele sempre reclamava da demora e eu sempre acabava levando qualquer coisa para
evitar uma briga. Achei um vestido de ceda, azul. Ele era lindo e coube
perfeitamente no meu corpo e, por que não, na minha alma.
Sábado a noite eu
estava pronta e toda linda. Cristopher, como sempre, não havia reparado. Eu já
não ligava pra isso. Perdi muito tempo chorando porque ele não prestava atenção
em mim. Antes eu o cobrava muito e, talvez isso, tenha desgastado nossa
relação. Nossos amigos foram chegando um a um ou em casais. As dez e meia,
todos já haviam chegado. Colocamos uma música (sempre a que ele gostava) e
começamos a beber e bebericar alguma coisa. O Cristopher conversava com todo
mundo, com seu ar diplomático e festeiro, enquanto eu fazia das tripas coração
pra não deixar a festa acabar em desastre, tentando agradar a todos os
convidado. Mais bebida para um, mais petisco para outros. Ah, você não bebe? Ok,
vou ver o que posso fazer. Em algum momento entre duas e três horas da
madrugada algo me irritou. Então comecei a beber freneticamente e liguei meu
foda-se para todo mundo. Bebi até não conseguir mais caminhar sem apoio da parede
ou de alguma amiga. Estela me levou para o quarto, dada minhas condições.
Cristopher nem se deu ao trabalho, continuou bebendo, cercado por seus escudeiros
e duas amigas, Karina e Alice. Nunca fui muito com a cara da Alice.
Acordei subitamente lá
pelas tantas. Não reparei em que horas eram. Ainda estava tonta e com um gosto
horrível na boca. Me sentia enjoada. Apesar de tonta, estava lúcida e conseguia
me equilibrar. Resolvi descer e procurar Cristopher. Ninguém tinha visto ele. Boa
parte dos convidados já tinham saído e os que estavam pareciam constrangidos. Perguntei
à Estela porque todos estavam estranhos. Ela ficou em silêncio. Comecei a ficar
preocupada e desconfiada. Fui agressiva: PORRA, CADÊ O CRISTOPHER, CARALHO?!
Estela ficou assustada com minha reação e apontou para o banheiro. Eu entrei e
dei de cara com ele comendo a puta da Alice. Fiquei fora de mim: comecei a
esbravejar contra os dois e a bater nela. Ele ficou irado e me empurrou com
força. Eu caí e bati minha cabeça no vaso sanitário. Apaguei...
Comecei a chorar no
carro. Eu sempre soube que ele tinha várias amantes. Ele gostava de garotas
jovens e problemáticas. Era um misógino que gostava de subordinar e manipular
as mulheres. E eu fui estupida por ter me submetido a ele por tanto tempo. Eu não
me arrependo de ter deixado ele. Ao contrário, me sinto aliviada. A muito tempo
que nosso relacionamento subsistia em razão do hábito. O amor não existia e não
representava mais nada. O que nos amarrava eram as promessas que tínhamos feito
um ao outro: vou te proteger, estar sempre ao teu lado, vou te proteger... A
obrigação de viver aquela relação nos mantinha juntos. E, apesar de estar
aliviada por termos terminado, sinto falta do tempo em que vivemos juntos. Por isso
é tão complicado seguir em frente, conhecer outro cara e me entregar à ele. Minhas
relações passaram a ser liquidas.
Entro em casa, abro a
porta e me deixo cair no sofá. Meu corpo parece que é feito de chumbo. As lagrimas
retornam. Para ser franca, eles nem tinham me abandonado. Choro muito, chego a
soluçar. Abro uma garrafa de vodca e tomo um trago. Desce queimando e
amargando. Sempre que tomo vodca, sinto vontade de vomitar, mas dessa vez não
senti. Tomei um longo gole. De certo modo, isso me anestesiou e as lágrimas
foram cessando. Creio que é Nietzsche quem diz que o suicídio é um forte
consolo, com ele atravessamos mais de um dia ruim. Estava certíssimo. Não tinha
coragem de cometer suicídio, disso sempre soube. Eu amava demais a vida para
dar um fim abrupto nela. Mas ultimamente andava pensando muito como seria se eu
me matasse. Quem sentiria minha falta? Talvez minha mãe ou minha mãe. Depois de
hoje, considerei que talvez a Estela fosse sentir. Eram pensamentos apenas. E
acho que qualquer ser humano saudável já deve ter pensado nisso pelo menos uma
vez na vida.
Eu não sou uma
fracassada. Tampouco uma pessoa pessimista. Mas sei lá, quando você compreende
que a vida não é um conto de fadas, que a esperança não é uma âncora, você
começa a olhar as pessoas a tua volta de um modo diferente, sem ilusões. Você se
torna uma pessoa mais sincera e mais honesta consigo mesma, apesar de toda dor.
Pode parecer, mas não me tornei uma mulher ressentida, como muito dizem por aí.
É complicado. Apenas sei que as noites de sexta-feira acabaram se tornando
tristes e vazias para mim. Acontece, faz parte... A cada dia que passa, estou
aprendendo a roubar a vida se eu quiser viver. Quer saber, vou ligar para
Estela e sair. Afinal, ela pode me fazer rir... ou chorar mais. Porém, tanto
faz...


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